A Feira de Arte de Lisboa de 2009 abriu e fechou sem grande entusiasmo. Repetiu-se o clímax da inauguração presidencial, a que logo se seguiram as queixas do costume pela falta de vendas. Não espanta. A capacidade de inovação por estas bandas é nula. Ano após ano, a coisa faz cada vez menos sentido. Culpa-se a falta de empenho de uns, a fraca publicidade, a crise económica, mas na verdade trata-se de um modelo de promoção e venda de arte contemporânea que já teve os seus dias e sobretudo, tem os seus lugares. E Lisboa não é um deles.
Como noutras coisas, Portugal chegou tarde ao frenesim das feiras. Deslumbrados com a Arco de Madrid, alguns galeristas e artistas convenceram-se de que seria possível reproduzir por cá um evento semelhante. Realizar vendas, atrair novos públicos e conseguir alguma visibilidade internacional através da atracção de estrangeiros, parecia então fácil já que as feiras se apresentavam como o grande palco da arte dita contemporânea. Só que o exercício nunca proporcionou nem vendas nem grande público. E quanto à internacionalização, para além de alguns espanhóis tresmalhados e um ou outro optimista aliciado por mais do que duvidosas hipóteses de negócio, a Arte Lisboa nunca se afirmou como algo de minimamente interessante na cena europeia. É uma Feira banal com obras de arte banais, tal como existem às dezenas nas pequenas cidades da Europa.
Nestas coisas a imitação raramente compensa e, muito menos, pretender concorrer com aqueles que chegaram antes, já se afirmaram e são mais dinâmicos. Copiar a feira de Madrid não é simplesmente um erro, é uma receita para a irrelevância, aliás bem patente. A feira de Lisboa só poderia fazer algum sentido, e existir, se fosse capaz de introduzir alguma inovação.
Fosse ela nos conteúdos ou na forma de se organizar. Assim, é tão-só o reflexo de um meio artístico, ele mesmo, pobre e pouco estimulante.
É claro que nunca faltam desculpas para o fracasso. Se noutros anos foi a pouca publicidade, agora foi a crise, que aliás serve para tudo, a começar pela falta de imaginação e criatividade. Ora a crise na arte não é um acidente, é um mecanismo evolutivo. Uma condição ambiental, para ir buscar uma metáfora à biologia. A arte está sempre em crise, porque, ao contrário do que alguns imaginam, nunca nada é seguro, nem está determinado. Aliás, um dos equívocos do investimento na arte contemporânea é pensar, a cada momento, que a história terminou. Os museus têm as caves cheias de obras que tiveram os seus quinze segundos de fama e hoje não valem nada, nem têm grande interesse.
É certo que na crise actual deste particular mercado está também presente um factor recente. Nos últimos anos, a arte tornou-se num activo tóxico. Com valores bastante empolados e, em muitos casos, sem possibilidade efectiva de realização. Veja-se, por exemplo, como nos casos BPN e BPP, as colecções de arte serviram para manipular contabilidades e disfarçar duras realidades. A famosa colecção Ellipse do BPP, que na palavra de João Rendeiro custou 50 milhões, vale hoje menos de 20 segundo a Sotheby's, embora seja improvável que alguém a venha a adquirir por mais de 5 milhões. Nascida de um esquema financeiro com a conivência activa de artistas, galeristas e um circuito viciado e vicioso de consultores, serviu sobretudo para empolar preços e gerar especulação. Com o ruir dos grandes esquemas da alta finança, este pequeno nicho de fantasia apagou-se num ápice. Em consequência o mercado estagnou, as galerias deixaram de vender e a maioria dos artistas, presentes nestas colecções, está em franca desvalorização. Neste sentido, a Feira de Lisboa não podia deixar de reflectir a crise da especulação. O que, bem vistas as coisas, até é muito positivo.
É claro que nada disto tem interesse para o curso da arte. E, ainda menos, para quem realmente se interessa pela evolução desta forma de conhecimento essencial para o desenvolvimento da cultura humana. Na verdade, a arte sempre se deu mal com a moda e com o mercado. A ambição é outra. E maior.
(por Leonel Moura, in Jornal de Negócios)

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